{"id":897,"date":"2017-01-10T08:02:51","date_gmt":"2017-01-10T11:02:51","guid":{"rendered":"http:\/\/newstruckpad.wpengine.com\/?p=897"},"modified":"2017-01-10T08:02:51","modified_gmt":"2017-01-10T11:02:51","slug":"conheca-a-pior-estrada-do-brasil-onde-acidentes-e-prejuizos-sao-rotina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/news.truckpad.com.br\/?p=897","title":{"rendered":"Conhe\u00e7a a pior estrada do Brasil, onde acidentes e preju\u00edzos s\u00e3o rotina"},"content":{"rendered":"<p>Uma gota de suor escorre pelo rosto do borracheiro Jo\u00e3o Marciano, o Gauchinho, enquanto ele d\u00e1 mais uma batida com um martelo para tirar a roda de um caminh\u00e3o parado em sua loja em Placas, \u00faltimo povoado do Oeste da Bahia.<\/p>\n<p>A roda sai do eixo ap\u00f3s uma \u00faltima puxada. O pneu est\u00e1 destru\u00eddo.<\/p>\n<p>\u201cEsse j\u00e1 era. Vai pra pilha\u201d, lamenta Gauchinho ao informar o caminhoneiro Rafael Balan, que at\u00e9 observa a cena conformado.<\/p>\n<div id=\"blogd-753872499\" class=\"blogd-conteudo-do-post\"><\/div>\n<p>O pneu de R$ 1.400 vai para uma \u00e1rea na lateral da loja que, um m\u00eas atr\u00e1s, estava limpa e agora tem outros 30 pneus amontoados \u00e0 beira da BA-460, uma das vias que liga a regi\u00e3o ao Tocantins.<\/p>\n<p>O trecho faz parte de uma rota de 262 quil\u00f4metros que \u00e9 considerada a pior estrada do pa\u00eds entre os 109 principais corredores de tr\u00e1fego no pa\u00eds, segundo pesquisa anual da CNT (Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Transportes).<\/p>\n<p>Velha, perigosa, sem sinaliza\u00e7\u00e3o, com curvas fechadas, pontes estreitas e com buracos e ondula\u00e7\u00f5es em quantidade significativa, a liga\u00e7\u00e3o vi\u00e1ria entre as cidades de Luis Eduardo Magalh\u00e3es (BA) e Natividade (TO) fez o caminhoneiro Rafael Balan perder tudo o que ganharia no frete.<\/p>\n<p>\u00c9 um pequeno peda\u00e7o da conta que colabora para o pa\u00eds a desperdi\u00e7ar todo ano R$ 2,3 bilh\u00f5es pela m\u00e1 qualidade das vias asfaltadas, segundo estimativa da CNT.<\/p>\n<p>O mau estado da via leva a perdas financeiras -na estimativa da confedera\u00e7\u00e3o, cada caminh\u00e3o que passa nesse trecho gasta 48% mais do que gastaria numa estrada boa- e tamb\u00e9m de vidas.<\/p>\n<p><a class=\"fancybox image\" href=\"https:\/\/i2.wp.com\/blogdocaminhoneiro.com\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/pior-estrada-do-brasil-1.jpeg\"><br \/>\n<\/a>Foram 110 acidentes em 2014, com 12 mortes, colaborando com a estimativa de 44 mil mortes anuais no tr\u00e2nsito no Brasil.<\/p>\n<p>\u201cMorre mais gente aqui em estradas que em pa\u00edses em guerra\u201d, diz Bruno Batista, diretor executivo da CNT, que estima um custo de R$ 187 milh\u00f5es para recuperar esse trecho percorrido pela reportagem.<\/p>\n<p><b>Velocidade<\/b><\/p>\n<p>De acordo com dados de uma pesquisa da consultoria Bain &amp; Company, o pa\u00eds tem apenas 14 mil quil\u00f4metros de estrada realmente de qualidade, vias de m\u00e3o dupla, com acostamento e sinaliza\u00e7\u00e3o, chamadas de autoestradas. Isso significa menos de um d\u00e9cimo do total de vias americanas e chinesas nessa condi\u00e7\u00e3o, outros dois pa\u00edses com grandes territ\u00f3rios.<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/f.i.uol.com.br\/folha\/mercado\/images\/17007186.png?resize=300%2C523\" width=\"300\" height=\"523\" border=\"0\" \/><br \/>\nPara dirigir na pior estrada do Brasil, os caminhoneiros contam que precisam andar em baixa velocidade por v\u00e1rios quil\u00f4metros. Est\u00e3o sujeitos a freadas bruscas a qualquer momento, fazendo com que o consumo chegue em m\u00e9dia a 1,4 quil\u00f4metros por litro \u2013 \u00e9 poss\u00edvel fazer at\u00e9 2,2 quil\u00f4metros por litro numa estrada de boa qualidade.<\/p>\n<p>As freadas podem acontecer a qualquer momento j\u00e1 que s\u00e3o raras as placas na rodovia.<\/p>\n<p>Num trecho da TO-040, pr\u00f3ximo \u00e0 cidade de Bom Jardim, uma descida termina com um trevo com duas curvas em 90 graus. Sem qualquer sinaliza\u00e7\u00e3o, as op\u00e7\u00f5es para quem n\u00e3o conhece s\u00e3o a freada brusca ou a passagem em linha reta diretamente para dentro do terreno do comerciante Genivaldo Oliveira de Ara\u00fajo.<\/p>\n<p>\u201cTem dia aqui que a gente tira um caminh\u00e3o debaixo do outro\u201d, relata o dono da pequena mercearia \u00e0 beira da estrada.<\/p>\n<p>H\u00e1 18 anos morando ali, Genivaldo diz que nunca viu a estrada ter uma conserva\u00e7\u00e3o adequada. Nos \u00faltimos cinco anos, o trecho esteve sempre classificado entre as cinco piores, embora o governo do Tocantins diga que as vias receberam melhorias e est\u00e3o \u201cem bom estado\u201d.<\/p>\n<p>As melhorias, na verdade, s\u00e3o remendos nos buracos do pavimento que ocorrem ano sim, ano n\u00e3o. Em trechos da TO-040, \u00e9 poss\u00edvel ver de duas a tr\u00eas diferentes camadas de asfalto sobre a outra, criando calombos que os caminhoneiros apelidaram de \u201cburacos para cima\u201d.<\/p>\n<p>A via \u00e9 usada principalmente por caminh\u00f5es que v\u00e3o com adubo da Bahia e os que voltam com calc\u00e1rio e gr\u00e3os produzidos no Tocantins.<\/p>\n<p>Dirceu Delatorre, que tem duas fazendas no Tocantins, diz que seus sete caminh\u00f5es deixariam de ter custos at\u00e9 20% maiores por transitar na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Um dos seus motoristas \u00e9 No\u00e9 Rodrigues, 65 anos, dirigindo caminh\u00e3o desde 1978. Orgulhoso, mostra sua nova Volvo 540 I-Shift, com c\u00e2mbio autom\u00e1tico de 12 marchas. Mas, na hora de partir para a rodovia, o sentimento \u00e9 a lamuria.<\/p>\n<p>\u201cD\u00e1 at\u00e9 pena botar um caminh\u00e3o novo assim numa estrada dessa\u201d, diz o caminhoneiro, lembrando o pre\u00e7o de R$ 375 mil da m\u00e1quina.<\/p>\n<p><b>Perdas<\/b><\/p>\n<p>S\u00f3 o setor agr\u00edcola brasileiro desperdi\u00e7a R$ 3,8 bilh\u00f5es, segundo a estimativa da CNT, apenas com o transporte dos 66 milh\u00f5es de toneladas de milho e soja por rodovia (o que inclui estradas n\u00e3o asfaltadas). Isso colabora para que o custo para transportar a produ\u00e7\u00e3o no Brasil sejam entre o dobro e o triplo da m\u00e9dia americana, por exemplo.<\/p>\n<p>Quando esses produtos usam caminh\u00e3o para dist\u00e2ncias acima de mil quil\u00f4metros, o transporte pesa ainda mais no custo, tornando o produto menos competitivo.<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/f.i.uol.com.br\/folha\/mercado\/images\/17007184.png?w=800\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"430\" border=\"0\" \/><br \/>\nNa regi\u00e3o do Matopiba, que abrange Maranh\u00e3o, Tocantins, Piau\u00ed e Bahia, essas perdas s\u00e3o ainda mais significativas j\u00e1 que elas est\u00e3o distantes mais de mil quil\u00f4metros dos portos. \u00c9 nessa \u00e1rea que a pior liga\u00e7\u00e3o passa.<\/p>\n<p>Por causa do cont\u00ednuo aumento das lavouras de soja, milho e algod\u00e3o na regi\u00e3o nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, o governo decidiu fazer dois projetos ferrovi\u00e1rios tentando reduzir custos de transportes e, assim, incentivar mais produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma d\u00e9cada se passou e nem a extens\u00e3o da Ferrovia Norte-Sul at\u00e9 S\u00e3o Paulo e nem o Ferrovia Oeste-Leste, de Barreiras (BA) a Ilh\u00e9us (BA), est\u00e3o funcionando. A nova previs\u00e3o da Valec, estatal respons\u00e1vel, \u00e9 2018.<\/p>\n<p>J\u00e1 foram gastos mais de R$ 10 bilh\u00f5es, parte deles perdida em superfaturamentos e outros preju\u00edzos, e o pouco que ficou pronto n\u00e3o funciona adequadamente.<\/p>\n<p>No caso da regi\u00e3o do Tocantins, as cidades pr\u00f3ximas ao trecho da pior rodovia poderiam utilizar mais facilmente a Norte-Sul como via de escoamento at\u00e9 o porto. Para isso, o projeto original previa p\u00e1tio para dep\u00f3sito e transbordo de mercadorias em Porangatu (TO). A Valec pagou R$ 11 milh\u00f5es em equipamentos para sua constru\u00e7\u00e3o, mas o p\u00e1tio nunca ficou pronto.<\/p>\n<p>\u201cA gente tinha muita esperan\u00e7a nessas linhas\u201d, diz a fazendeira Carminha Missio, presidente do Sindicato Rural de Luis Eduardo Magalh\u00e3es.<\/p>\n<p>Sem a op\u00e7\u00e3o do trem, o caminh\u00e3o vira a sa\u00edda para tudo. No caso do calc\u00e1rio, um produto de alta densidade, a mercadoria deve ser colocada s\u00f3 at\u00e9 o meio da ca\u00e7amba para que o peso n\u00e3o fique acima do permitido para a estrada. Se o peso est\u00e1 al\u00e9m do m\u00e1ximo, mais chance da estrada ser destru\u00edda.<\/p>\n<p>A balan\u00e7a no posto de fiscaliza\u00e7\u00e3o na fronteira entre os dois estados est\u00e1 quebrada desde novembro, sem perspectiva de voltar a funcionar porque o contrato com a manuten\u00e7\u00e3o foi encerrado. Fiscais que trabalham no posto contaram que caminh\u00f5es passavam nitidamente acima do peso, o que piora ainda mais a rodovia.<\/p>\n<p>Dono de uma frota de caminh\u00f5es em Dian\u00f3polis (TO), a cidade no meio do caminho do pior trecho rodovi\u00e1rio do pa\u00eds, Evandro Mokfa conta que os custos a mais com sua frota acabam se refletindo nos pre\u00e7os. E nem chegam a ser todos repassados aos consumidores.<\/p>\n<p>A NTC&amp;Log\u00edstica, maior entidade do setor de empresas de transporte por caminh\u00e3o, faz semestralmente pesquisa em que aponta que as empresas recebem entre 9% e 21% menos que os custos m\u00ednimos necess\u00e1rios para a atividade. A crise aprofundou os n\u00fameros.<\/p>\n<p>Quando conversou com a reportagem, o caminhoneiro Jo\u00e3o Batista de Souza estava h\u00e1 seis dias esperando por carga num posto de gasolina em Luis Eduardo para um frete para Fortaleza. Segundo ele, os valores ca\u00edram de R$ 160 a tonelada para R$ 150 em duas semanas. H\u00e1 um ano, passava de R$ 200.<\/p>\n<p>Perguntado porque aceita pre\u00e7os que, segundo ele, nem chegam a pagar seus custos e o diesel numa estrada como a via at\u00e9 Natividade, o caminhoneiro se resigna: \u201cO caminh\u00e3o est\u00e1 a\u00ed. N\u00e3o tem como ficar parado\u201d.<\/p>\n<p><b>Baiuchos<\/b><\/p>\n<p>Para compensar os pre\u00e7os mais altos de frete, as atividades precisam de uma rentabilidade elevada, o que limita o crescimento. Luis Eduardo, onde as terras s\u00e3o amplas e \u00e9 poss\u00edvel planta\u00e7\u00f5es em grandes extens\u00f5es, cresce em m\u00e9dia tr\u00eas a cinco vezes mais que as cidades mais ao fim do trecho, no estado do Tocantins, segundo dados do IBGE.<\/p>\n<p>Natividade, uma das pontas do trecho pesquisado, \u00e9 a cidade mais antiga do Tocantins, fundada em 1734 por Bandeirantes em busca de ouro. A regi\u00e3o de rios de \u00e1guas cristalinas chegou a ter 40 mil escravos vindos do litoral da Bahia pela mesmo caminho que hoje \u00e9 a pior liga\u00e7\u00e3o rodovi\u00e1ria do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Os escravos deixaram como heran\u00e7a a inconclusa Igreja para Nossa Senhora do Ros\u00e1rio dos Pretos, que levou o Iphan em 1997 a declar\u00e1-la Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Assemelhada a outras cidades do ciclo do ouro como Paraty (RJ), Goi\u00e1s Velho (GO) e Tiradentes (MG), Natividade teria o turismo como op\u00e7\u00e3o para o desenvolvimento. Mas os pr\u00f3prios moradores s\u00e3o c\u00e9ticos quanto a poderem receber visitantes.<\/p>\n<p>\u201cMeu sobrenome aqui \u00e9 \u00b4louca\u00b4\u201d, diz Cirene Coelho, presidente do Conselho Municipal de Turismo sobre como \u00e9 encarada ao falar sobre trazer turistas para a cidade.<\/p>\n<p>Cirene reclama das notas dadas \u00e0 estrada, mas n\u00e3o sabe quantos visitantes chegam \u00e0 noite da regi\u00e3o da Bahia em seu hotel por medo de parar na estrada. A viagem de 250 quil\u00f4metros, a depender do per\u00edodo, pode durar mais de cinco horas.<\/p>\n<p>\u201cSe d\u00e1 um problema, vai ficar onde se nem acostamento tem?\u201d, reclama.<\/p>\n<p>Sem turismo, com terrenos de menor produtividade e mais distante dos portos que sua concorrente, Natividade perdeu 13% de suas empresas num per\u00edodo de 10 anos e vai vivendo da prefeitura, assim como a maioria das cidades brasileiras.<\/p>\n<p>A vizinha Luis Eduardo Magalh\u00e3es, antiga Mimoso do Oeste, tem 30 anos como munic\u00edpio. Carminha Missio, a presidente do Sindicato Rural da cidade, conta que o pai, Am\u00e9lio Gatto, chegou em 1979 (quando a regi\u00e3o ainda pertencia a Barreiras) apenas com um carro velho, que ficou de entrada para a compra de um terreno.<\/p>\n<p>A \u00e1rea era dezenas de vezes maior que a pequena ch\u00e1cara onde ele, a esposa e 10 filhos teriam que prover o futuro de todos na pequena cidade ga\u00facha de Espumoso.<\/p>\n<p>Chamados de \u201cBaiuchos\u201d, eles precisaram construir os caminhos de terra com tratores, dormir sobre caminh\u00f5es e estocar alimentos em banha de porco para n\u00e3o passarem fome devido ao isolamento.<\/p>\n<p>A chegada das estradas asfaltadas, conta Carminha, ajudou no crescimento da regi\u00e3o, agora uma das mais ricas do Nordeste. O PIB per capita \u00e9 de R$ 50 mil, quase o dobro do brasileiro. Mas a rodovia parou no tempo: \u00e9 a mesma de 2006, quando havia 5 mil carros na cidade que hoje tem 40 mil, o que levou a seu esgotamento e, consequentemente, aos acidentes.<\/p>\n<p>Segundo dados da pol\u00edcia local, foram 110 acidentes no ano de 2015, quase um a cada tr\u00eas dias. Neles, morreram 12 pessoas. Em outro trecho de 157 quil\u00f4metros da BR-242, que corta a cidade e vai at\u00e9 Barreiras (BA), mais 110 acidentes, com 13 mortos.<\/p>\n<p>Anos atr\u00e1s, a v\u00edtima foi Am\u00e9lio Gatto, o pai de Carminha. Com voz embargada, ela diz o que pensa sobre as estradas na regi\u00e3o: \u201cs\u00e3o, basicamente, assassinas\u201d.<\/p>\n<p><strong>Fonte:<\/strong>\u00a0<a href=\"http:\/\/blogdocaminhoneiro.com\/2017\/01\/conheca-a-pior-estrada-do-brasil-onde-acidentes-e-prejuizos-sao-rotina\/\"><em>Blog do Caminhoneiro<\/em><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma gota de suor escorre pelo rosto do borracheiro Jo\u00e3o Marciano, o Gauchinho, enquanto ele d\u00e1 mais uma batida com um martelo para tirar a roda de um caminh\u00e3o parado em sua loja em Placas, \u00faltimo povoado do Oeste da Bahia. A roda sai do eixo ap\u00f3s uma \u00faltima puxada. 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